Ilha da Fantasia


Varadero: Um nome a lazer

Diante do tanto que se fala das dificuldades de Cuba, muita gente nem imagina que esse é um dos grandes destinos de turismo de lazer e praia do mundo, principalmente dos europeus. E não poderia deixar de ser. Cuba é a maior ilha do Caribe, então é de se supor que em extensão, o seu litoral é o mais generoso que o da concorrência na região. Sendo você um turista típico, é provável que procure os serviços de uma agência ou operadora de turismo e é mais provável que essas empresas irão te jogar em um dos balneários “all inclusive” que, muito mais provável ainda, deve estar localizado em Varadero.

Varadero é uma península com quase 20 km de extensão. Antes de Fidel, era área exclusiva de veraneio dos que tinham grana. Depois da revolução, a galera nativa pode ter o prazer de desfrutar de suas praias de areias brancas e mar com a cor muito particular azul-Caribe. Nota: é muito mais fácil transformar a Hortência em uma beldade no Photoshop do que tentar reproduzir no programa essa coloração numa paisagem marinha que não seja original daquela região.

Resort típico de Varadero

Quando a economia cubana afundou na crise, Varadero voltou a ser exclusiva pra quem tem grana. O governo franqueou a área para que grandes redes hoteleiras internacionais a explorassem. Hoje brotam resorts por toda península e o vidão de conforto e fartura que seus hóspedes desfrutam é uma coisa que o cubano comum, mesmo o mais criativo, tem dificuldade de imaginar. Ainda no avião que saiu do Panamá pude detectar que a imensa maioria da turistada que estava se dirigindo para Havana iria fazer da capital cubana apenas um trampolim pra poder chegar à Ilha da Fantasia, ou melhor, Varadero.

Novos complexos turísticos pipocam nas areias quentes de Varadero

Aquela procura tão grande de pessoas do mundo inteiro pelo balneário, é claro que deveria ter sua razão. Fomos pra Cuba sem fazer parte de excursões ou pacotes turísticos, assim, estávamos fora da classificação de turistas normais que vão para Cuba em busca de suas praias e hotéis de lazer e automaticamente não tínhamos direito às benesses desses apelativos balneários. Fiquei curioso. Laura concordou que deveríamos passar um dia, pelo menos, em uma praia fora da capital. A princípio, as opções eram Cayo Largo e Varadero. Fui numa agência de turismo estatal à cata de um pacote bate-e-volta para esses lugares. A burocrática agente turística se esforçou mais pra vender Varadero. Concordei. Até por que foi bem mais barato. Dia seguinte, seis da manhã – escuro ainda – estávamos cochilando no lobby do hotel esperando a van. Seis e meia o veículo já disparava na estrada. Laura, que dorme até em disputa de pênalti em final de copa do mundo, continuou o cochilo. Eu desisti de tentar depois de bater com a cabeça no teto da van umas três vezes. O motorista curtia a emoção de quase levantar vôo a cada passagem por quebra-molas. Duas horas e meia depois ele estava nos desovando junto com duas mexicanas e outras duas holandesas em Varadero num resort espanhol. A guia cubana, versão modesta da Zeta-Jones, deu a orientação básica: alí se come e bebe o que quiser – ou agüentar, pode-se usar todas as instalações do hotel, exceto os equipamentos náuticos que são pagos à parte, e, ao final do dia, deveríamos arrastar nossas carcaças vulcanizadas pelo sol até a recepção onde lá estariam ela e o motorista para nos levar de volta a Havana.

O excelente café-da-manhã foi animador. A quantidade e sortimento da oferta alimentícia só tinha paralelo com o número de pessoas no imenso recinto e a variedade das suas nacionalidades. Rápida passagem por um bangalô para vestir os trajes de banho e já estávamos prontos pra o ponto alto do passeio que foi o impacto de dar de cara com o famoso mar do Caribe, aquele das areias brancas e água daquela cor meio complicada que eu falei anteriormente. Passados esses instantes de contemplação, caí na real. Ali eu estava fadado ao tédio. Nasci e vivo em um estado à beira do Atlântico, numa cidade com as praias urbanas mais belas do Brasil e confesso que esse tipo de programa não há muito tempo já não me apetece. Laura foi mais esperta e estrategicamente tinha na bolsa a biografia de Tim Maia, que foi seu entretenimento nas horas que passou na espreguiçadeira na beira da praia. Depois de olhar pra o relógio e fazer as contas de quanto tempo ainda restava para o resgate até Havana, resolvi dar uma caminhada pela praia em busca de alguma foto interessante.

Longe de casa, turista topa tudo

Do ponto de vista de quem caminha à beira-mar, Varadero é um cenário de mar que bate calmo na areia branca e uma sucessão de resorts com seus habitantes temporários. Em frente a cada um desses hotéis dezenas de turistas - em sua maioria absoluta europeus -, esturricados pelo sol do Caribe, barcos à vela, aqui e acolá um topless que não valia um alvoroço e entre o vazio de uma área de hotel e outro, discretos nativos que tentam vender conchas e estrelas do mar aos passantes. Também no espaço da praia, os animadores dos resorts tinham como missão tirar da letargia os seus hóspedes. Antes de voltamos pra o almoço no hotel, deu tempo de testemunhar uma aula de dança latina para alienígenas. O corpo de baile que compunha o mico coletivo requebrava ao som de uma música da nossa banda Calypso, com versão em espanhol. Ainda fiquei uns minutos olhando aquelas pessoas e imaginando o que deveriam ser na vida real em dias menos felizes que aquele. Não me veio à cabeça uma só ocupação na qual o cidadão não passasse 11 meses por ano esperando o mês de férias numa praia paradisíaca.

Bom, daí pra frente foi só um olhar constante pro relógio esperando a hora do resgate para Havana. Fiquei tão satisfeito com a volta pra capital, que nem notei se a estrada tinha os mesmos quebra-molas da ida e peguei no sono.

Deu na Gazeta



Um dos visitantes ilustres desse blog, o amigo Fábio Amorim, viu em algumas das fotos publicadas aqui o objeto de uma grande paixão: carros antigos. Sem perder tempo, entrou em contato comigo e em velocidade digna de uma Ferrari preparou uma matéria especial sobre os carros antigos que ainda insistem em circular por Cuba. O material saiu no Gazeta Automóvel, caderno publicado semanalmente na Gazeta de Alagoas.

Sem favor algum, Amorim é um dos melhores jornalistas especializados em automobilismo que temos no Brasil. O nível de conhecimento do cidadão sobre tudo que anda sobre rodas movido por um motor é absurdo. Só de dar uma sacada, o cara deu nome aos bois, digo, às banheiras. Fazendo o download do PDF abaixo, você pode ler a matéria do Fábio, ilustrada com meus cliques e descobrir quem é quem no museu de carros antigos ao ar livre de Havana.

http://www.leovillanova.net/gazetaautomovel-24Jul2008-carroscubanos.pdf

O Lucro certo que virou fumaça

Velhinho carrega no peito a tradição cubana

Sobre os charutos cubanos, nada ou pouco a declarar. Não fumo. Mas os chegados afirmam que são o supra-sumo do fumacê. Os cubanos tratam os charos originais da Ilha de ‘puros’. Pude notar que somente os mais velhos ainda cultivam caprichosamente esse prazer. Em Cuba, a juventude de hoje foi forjada no esporte e dentro de preceitos de uma vida, na medida do possível, saudável. Daí, conclui-se que essa tradição de curtir o passar do dia em meio a baforadas, no momento, está um pouco comprometida. Coincidência, ou não, em duas das poucas oportunidades que eu pude assistir à televisão cubana, os programas tratavam justamente de esforços e novas técnicas da medicina do país para o tratamento e cura do câncer de pulmão.






Fábrica de charutos Partagás. Há vagas para virgens

Pode-se fazer visitas a algumas fábricas de charuto e ver que o processo de enrolar as paradas ainda é artesanal. Ainda fui até uma delas, a Partagás, que fica no centro de Havana. Por 10 pesos convertibles é possível dar um giro pela fábrica incluindo a área de produção. Quem entrar lá vai descobrir que não existe mais aquele funcionário que, no passado, ficava lendo em voz alta o jornal para distrair os torcedores - que é como se chamam os especialistas no preparo dos charutos. Também ficou no terreno da lenda a história de que havia uma preferência por mulheres virgens e de coxas avantajadas para trabalhar nas fábricas de tabaco, pois assim os charutos poderiam ser enrolados sobre uma superfície mais macia, garantindo uma qualidade extra ao produto. Contra isso, há o fato de existir uma grande quantidade de homens lidando com o tabaco nas atuais fábricas cubanas. E quanto às mulheres torcedoras, a destreza que com que elas manipulam os charutos dos mais variados formatos e bitolas, definitivamente não é coisa de virgem.

Puro na mercearia em Habana Vieja: 2 reais.

Quando eu descobri que um único puro Cohiba é vendido em Maceió por mais de 50 reais bateu o arrependimento de não ter cedido aos inúmeros apelos dos vendedores de charutos nas ruas, ou até mesmo de ter comprado ao menos uma caixa nas lojas do governo. Dava pra fazer uma grana com a revenda por aqui e garantir uma viagem de volta pra Cuba.

Serpente Marinha

Malecón: vai quem tem negócio

Em roteiros e sugestões para visitantes a Havana, sempre há a recomendação para um passeio pelo Malecón. Visto de cima, pode-se descrevê-lo como uma serpente colossal de mais de 7 km na beira-mar da capital de Cuba. Às pistas para os veículos e mais o largo passeio para pedestres, une-se outro patamar mais baixo que eu deduzi ter sido há anos atrás um outro calçadão mais ao nível das marés, fazendo o papel da areia da praia que foi tomada pela construção. Esse nível inferior foi detonado pelo mar e deu forma a oportunas piscinas e pequenas plataformas onde as crianças se divertem, casais namoram desinibidamente ou os caras simplesmente ficam enchendo a cara de rum. Essas mesmas atividades também podem ser observadas no nível superior, com menos entusiasmo.

O pôr-do-sol que falhou, visto do Malecón

O sol quente de Havana e mais a massa de concreto e asfalto fervilhante não estava fazendo do Malecón o local de passeio mais aprazível para os turistas europeus, nem pra mim que achava que o sol do nosso Nordeste já tinha curtido meu couro por duas gerações. Por isso, nota-se que lá é um ponto de encontro muito particular dos habaneros. Nessa avenida há um grande número de construções sendo recuperadas ou reformadas. Dá pra prever que a feição do lugar vai mudar pois os antigos prédios irão se transformar brevemente em restaurantes, bares e lojas de griffe para atender a crescente demanda turística. É estranho ver que os quarteirões à beira-mar, que em qualquer outra cidade litorânea do mundo seriam zona nobre, são ocupados por um grande número de famílias que aparentemente são de classe menos abonada, ou que provavelmente empobreceram radicalmente juntamente com o país nas últimas décadas.

O pôr-do-sol que deu certo

Me sugeriram que o pôr-do-sol no Malecón era um dos cenários mais fantásticos da cidade para ser fotografado. Claro que eu não ia perder esse clique. Laurinha fez o cálculo dos prós e contras da empreitada e ficou com um cochilo até a hora do jantar. Já eu, fiz o cálculo do tempo de caminhada até o inicio do Malecón, no Paseo del Prado e seis horas da tarde saí do hotel. 8 horas do que deveria já ser noite eu parei de avançar e comecei a voltar. Já tinha andado quase todo o Malecón e estava no bairro do Vedado com o sol ainda firme. Só meia hora depois ele começou a mergulhar no mar, mas o espetáculo foi decepcionante. Um nevoeiro na linha do horizonte acabou com minhas pretensões foto-artísticas. Outro dia refiz os cálculos e o resultado mais inteligente foi ver o pôr-do-sol de Havana do alto da cobertura do hotel, junto da minha mulher.

Guantanamera

Abutres rondam monumento a José Marti


Sem dúvida alguma, a guajira mais famosa de Cuba é ‘Guantanamera’. De tanto tocar no mundo inteiro, transformou-se para muita gente em uma música mala, tal qual aquelas do Geraldo Azevedo que são executadas obrigatoriamente nos barzinhos com som ao vivo, voz e violão, de Maceió. Daí, ninguém passa a nem prestar atenção no que ouve, perdendo a oportunidade se aprofundar na eventual mensagem da canção. Bom... guajira eu sabia que é um dos estilos musicais cubanos, guantanamera é algo ou alguém que vem de Guantánamo, no extremo leste da ilha. Mas somente já em Cuba fui descobrir que a letra da canção famosa foi retirada de versos de um poema de José Martí, vendo-a escrita nas paredes do memorial ao poeta, na capital do pais. Tendo oportunidade e interesse de me aprofundar nessa questão, deu pra entender por que essa música é tão importante pra os cubanos, se transformando numa espécie de hino informal.

Che imortalizado na fachada do Ministério do Interior

José Martí é herói de primeira grandeza da nação. Antes de qualquer outro, seu nome é o primeiro a ser cogitado para ser colocado em ruas, escolas, hospitais ou o que mais merecer uma placa a ser fixada em Cuba. Martí foi o principal dos revolucionários idealizadores da independência e brigou até a morte na guerra de Cuba contra a colonizadora Espanha, no apagar das luzes do século XIX. A luta continuou após o seu desaparecimento. Quando a vitória cubana era irreversível, os Estados Unidos, oportunistamente, entraram na guerra. O roteiro final desse conflito não é dos mais criativos. Pra entrar nessa guerra, os americanos se aproveitaram da desculpa de ter ocorrido um suposto ataque ‘terrorista’ a um dos seus navios que voou pelos ares na Baía de Havana. Em represália, os ianques detonaram outros barcos dos espanhóis, que, já em clima de fim de festa, bateram em retirada dando a parada como perdida. Os americanos a partir daí começaram a vender a idéia que foram os libertadores de Cuba, e, já na primeira constituição do novo país independente, fizeram os cubanos engolirem descendo quadrado a famigerada Emenda Platt, que, em poucas palavras, dava aos Estados Unidos direito de intervir na hora que achassem necessário, da maneira que lhes aprouvesse, nos assuntos de Cuba. De brinde, ainda exigiam para uso por tempo indeterminado uma área em Guantánamo, ponto estratégico no Caribe, onde montaram a base militar que mantêm firme desde então e foi o parque de diversões dos torturadores da era Bush.

Em uma mercearia, santuário reverencia ídolos de todas as espécies

No monumento- museu a Martí, a história da independência e revolução cubana é contada pondo-se de lado essa participação especial dos imperialistas do norte. Junto aos salões que expõem a vida de Martí e sua luta, há um outro dedicado ao segundo personagem mais cultuado pelos cubanos: Che Guevara. A imagem do guerrilheiro é tratada com a devida reverência na Ilha. Enquanto que no resto do mundo aquela foto famosa do revolucionário pode ser vista estampando até biquínis, lá foi reproduzida em bela estilização na fachada do ministério do Interior, que fica justamente em frente ao monumento a Martí. Minha dúvida fica em relação a Fidel. O fim de sua estada no poder e do regime que comandou por quase 50 anos tem feições melancólicas. A maioria das fotos dele que vi nas paredes de casas, bares ou padarias – nunca em repartições ou prédios públicos, por proibição oficial -, já estavam desbotadas. Em alguns lugares já foi até substituída por uma outra de Hugo Chávez. No caso de uma inexorável mudança política no país, tenho dúvida que no futuro abram mais um salão no memorial para deixar Fidel em destaque proporcional a Che e Martí.

Wherareyoufrom?

Objetivo central do embargo era mudar todos os cubanos para esse endereço

Grande parte da obra da Revolução Socialista de Cuba foi direcionada para a juventude. Tudo foi feito para que a sua ideologia fosse perpetuada, contando principalmente com a doutrinação de cada um dos novos cubanos que nascessem sob sua tutela. A população do país hoje em dia é formada por mais de 70% de pessoas nascidas depois do embargo econômico promovido pelos Estados Unidos. Ou seja, se alimentaram todo esse tempo com o pão que os americanos amassaram. Agora o governo socialista tem pouca contrapartida a dar a uma imensa população de jovens, que não testemunhou sua luta e aos poucos vê o orgulho dessa juventude sendo minado.

Cálculo médio da distância Havana-Miami: 180 km

É evidente o empobrecimento do pais. Habana Vieja, bairro mais antigo da capital, pelo estado de seus prédios – de melancólica beleza, visto de cima parece que sofreu um bombardeio. Várias vezes fiz questão de me perder e achar em quase todas as suas vielas e documentar aquilo tudo com a câmera. Lá encontrei uma quantidade muito grande de gente sem nada fazer. Em momento algum senti ameaça de perigo. Mas não sei até quando ainda vai haver essa barreira tênue barreira entre a necessidade e a honestidade para os cubanos.

Tiozinhos gringos recebem assistência turístico-afetiva das jineteras

”Wherareyoufrom?” Essa é a pergunta mais ouvida por qualquer estrangeiro que perambule pelas ruas de Havana. Depois da trigésima vez, no meu caso, que sou paciente, você passa a não mais responder. Essa não é uma questão de mera curiosidade, mas a oportunidade que muitos cubanos têm de iniciar o contato com os gringos. Após os primeiros segundos de atenção do interlocutor, rapidamente os jineteros revelam sua real intenção. Sem perder muito tempo eles oferecem charutos, refeições em casas de família – ‘la legítima comida criolla’- ou, dependendo do seu nível maior de atenção ou carência, a companhia da sua versão feminina, as jineteras. Há tempos já se ouve falar das jineteras, e eu as imaginava umas cubanas altamente roboculosas, estilo aquelas jogadoras de vôlei que dão couro nas brasileiras. Decepção. Pelo menos as que nós vimos, ficam devendo às mocinhas pouco vistosas que prestam socorro sexual aos italianos que aportam no litoral alagoano.

De uma dessas portas surgirá um vendedor de charutos

A penúria que a crise econômica trouxe ao cubano não derrubou de todo o seu orgulho. Há muita vergonha de pedir ajuda ou esmola. As crianças não pedem dinheiro, mas ‘un caramelo’. Os meninos mais ousados pedem "una monedita de regalo". Seria, digamos, um souvenir pra ele já que a moeda que os turistas usam obrigatoriamente é o peso convertible, que a população local teoricamente não tem acesso. Há outros casos criativos como o dia em que fui abraçado na rua por uma menininha de uns três anos. A mulher que estava do lado, supostamente sua mãe, me disse "Ella quiere solamente te dar un abrazo. Hoy es su cumpleaños". Claro, era aniversário da menininha, que me deu um beijo e de volta sonhava com uma ‘monedita’ de presente. E era pra não dar? Aliás, a cidade parecia estar em festa, por que, no mesmo dia, um insistente vendedor de charutos usou a mãe como último recurso pra tentar fechar o negócio. A véia, exatamente naquela data, estava completando 80 anos e ele precisava da grana pra fazer uma presença em casa. Pra quem já passou pela infeliz situação de ter que se livrar de um vendedor fitinhas do Senhor do Bonfim em Salvador, sendo xingado de verme por não ter aceitado aquele produto inestimável, o assédio dos jineteros cubanos é uma coisa, no mínimo, folclórica. Ainda.

Havana se move


Vai de ônibus chinês zerado ou banheira americana velha?

De dia, muita coisa mudou de figura pra mim em Havana. Antes de ganhar as ruas, ainda em uma galeria térrea do Hotel Sevilla encontrei uma loja da sport-fashion Puma e defronte uma locadora de carros onde você pode escolher se quer dar um rolé na ilha num carro francês último tipo ou num desses modelos qualquer coreanos com mais ou menos luxo.

É claro que é muito mais interessante se deslocar em Havana a bordo de um Cocotaxi – amor à primeira vista de Laurinha. Esse transporte é uma espécie de orelhão gigante montado em cima de uma motoneta. Nessa nave vão três pessoas incluindo o condutor, que tem direito ao único capacete, o qual só protege mesmo a consciência dele, já que é um daqueles tipos de isopor usados pelos ciclistas. No trânsito, os Cocos disputam de igual pra igual com todos os outros veículos, principalmente com as velhas banheiras, que também se oferecem como táxi para os turistas mais descolados. Os novíssimos ônibus articulados chineses aposentaram na capital um outro meio de transporte coletivo, que na verdade era uma carreta puxando um vagão que fazia as vezes de busão. Só vi essas tosqueiras em Matanzas, província vizinha de Havana.

Cocotaxi. Solução simples, barata e eficiente

Voltando a falar das banheiras cinqüentonas e teimosas, notei que a razão de elas terem sobrevivido todo esse tempo nas ruas de Cuba não se deve apenas ao fato do embargo americano e conseqüente falta de alternativa de transporte para o país. Os soviéticos enviaram para a Ilha milhares e milhares de Ladas durante o período que apadrinharam o regime de Fidel. E hoje a frota oficial se recompõe aos poucos com veículos do resto do mundo-não-imperialista-americano. Mas nenhum desses carros têm o simbolismo das banheiras americanas. Até hoje, mesmo com a alma de motor a diesel, elas são troféus ambulantes. São um dos marcos daquele dia em que os magnatas locais e gângsters e playboys americanos que se refastelavam em Cuba tiveram que sair correndo com as calças nas mãos deixando tudo pra trás. Até mesmo os seus reluzentes Cadillacs. E não podia ser diferente. Nem agora, nem naquela época, havia uma ponte no Estreito da Flórida ligando Havana a Miami. Não custa sonhar com o dia em que possamos ver coisa semelhante acontecendo em Alagoas. Taturanas e gabirus escorraçados fugindo para um rumo distante e o povão se apropriando e fazendo circular as Pajeros Full nas ruas do Biu, Jaça ou Grêice, por anos e anos, passando-as de pai pra filho.

Museu automobilístico a céu aberto

Os portais para o passado


Salão Vitória em Maceió. Mas poderia ser em Havana

Em Maceió, no bairro da Levada, existe uma barbearia chamada Salão Vitória. Cresci indo pelo menos uma vez a cada dois meses lá com meu pai cortar o cabelo. Sempre fiquei admirado como os anos se passavam e as coisas não mudavam ali. Creio que o proprietário, Seu Edinho, deva ter aberto o negocio ainda na década de 60. Depois disso, imagino que ele acrescentou às instalações do lugar apenas um pôster da seleção brasileira de 70, depois do Tri no México. Mais de 30 anos depois, volto lá no Vitória e compartilho com o meu amigo Carlos Nealdo a mesma sensação: ao entrarmos naquela barbearia, parecia que estávamos transpondo um portal pra o passado. Tudo parecia ter parado no tempo. O mobiliário era exatamente o mesmo, o inanimado e o vivo. Lá estavam Seu Edinho e alguns dos barbeiros de décadas atrás. Em um dos bancos de espera, a mesma pasta com modelos de corte de cabelo masculino tirados de recortes das revistas Cruzeiro ou Manchete, extintas há dezenas de anos.

Entrei em Havana de madrugada. As sombras e a parca iluminação não deixaram ver as marcas da deterioração. O cenário que estava sendo percorrido naquela atmosfera me deu a sensação de estar transpondo novamente um outro portal pra o passado. Só que dessa vez a dimensão era muito maior. Entendam que cidades antigas existem no resto do mundo, muitas mais velhas que Havana, mas em quais delas ainda estão em atividade cotidiana carrões com mais de cinqüenta anos? E dentro daqueles prédios, quando uma porta ou outra estava aberta, dava pra ver que seu miolos eram recheados de relíquias, tais quais as da barbearia do Seu Edinho.

Laura no Hotel Sevilla

O primeiro ‘amigo’ cubano -o motorista do microônibus chinês- me largou com Laura no hotel e sumiu no meio do breu. Escolhi ficar no Sevilla, localizado no bairro de Centro Habana, perto do que é mais antigo na cidade. Esse hotel foi inaugurado há exatamente um século e está primorosamente restaurado e conservado. Antes de subirmos pro nosso quarto ainda deu pra ver numa exposição no lobby que entre alguns dos hóspedes famosos, esteve lá nada menos que Al Capone. O mafioso na década de 30 havia tomado todo o sexto andar do hotel pra se hospedar junto com seus asseclas. Em outro quadro fiquei sabendo que quando estourou a revolução socialista, o então dono do hotel, um outro obscuro mafioso de origem uruguaia fugiu e não ficou pra ver quando as massas populares invadiram suas instalações pra promover um quebra-quebra na área onde ficava um cassino. Dias depois, Fidel em pessoa veio até o Sevilla pra dar a sua bênção aos funcionários do hotel que resolveram tomar conta do estabelecimento em cooperativa. Socialismo de resultados. Depois da aula de história expressa, fui dormir ainda com a sensação do portal.

Chegada na Ilha


Vista noturna de Havana

Cuba, já no início do século XX, era usada como balneário, principalmente pelos americanos. E não sem motivo. A ilha, a maior do Caribe, tem incomparáveis belezas naturais. Há na história caso de várias pessoas que se encantaram irremediavelmente por Cuba, como Ernest Hemingway. As lendas dessas paixões sempre correram o mundo. Desde o final dos anos 80 o país viu minguar a mesada soviética. Por que perder essa oportunidade de obter algum lucro com o que estava ali, dando sopa e de graça? Não, lucro não. Nada a ver. Seria exploração da mais-valia da natureza. Bom, daí começaram a ensaiar com os turistas do bloco comunista europeu, depois vieram as grandes redes hoteleiras, a coisa foi tomando uma cara profissional, e hoje a demanda é alta e só tende a crescer.

Oficialmente Cuba é dos últimos países comunistas -ou socialistas, como queiram- , do mundo. É claro que isso desperta curiosidade em muita gente que escolhe o país como destino. Para não quebrar essa fantasia, na chegada ao aeroporto José Martí, há quem ache que existe uma exagerada burocracia na aduana. Mas, depois do que se testemunhou nos aeroportos americanos pós-11 de setembro, ouvir dos oficiais perguntas tipo, como é seu nome, onde vai ficar, nem mesmo o pedido pra olhar pra uma suposta câmera na parede da cabine, desperta o menor suspense. Nem nessa hora os cubanos conseguem disfarçar a natural simpatia. Revolucionário leva desaforo pra casa? Leva. Vi uma velhinha de uns 80 anos dar um esporro num oficial que a havia mandado voltar pra fila de espera na alfândega, só por que ela tinha se adiantado e queria entrar na cabine junto com a netinha. Nem o aspecto sorumbático que o racionamento de energia deixou o aeroporto de Havana, faz com que se espere o pior.

Já com os pés fora do aeroporto descobri que tenho um clone em Havana. Ele se chama Toni. Infelizmente não o conheci. Mas sei que ele é o melhor amigo do motorista do ônibus que nos levou até o hotel. Rolava uma carona grátis se eu já não tivesse pago o transfer desde o Brasil. Não se pode prever tudo.

No estacionamento do aeroporto os táxis são novos. Franceses ou coreanos. Os ônibus que fazem o transporte dos turistas são chineses. Tudo novo, com DVD passando filme pirata de Jet-Li, ainda na fase pré-roliúdi. Na poltrona da frente, um casal brasileiro. A mulher, uma das maurícias que fez parte do levante contra a nhaca dos árabes no avião da Copa, falou com um certo desdém de paulista: “Nõaasssa, agora vai ser uma volta de 50 anos no têimpo”. Eu já tava de saco cheio com a afetação da cidadã. Na estrada, no escuro da madrugada, cruzamos com as primeiras banheiras americanas, como espectros automobilísticos que fazem aquele mesmo caminho. Naquela hora tive que concordar – em parte – com a Dona Maurícia.

Zica na Decolagem

Desde que os americanos criaram o Canal do Panamá, ainda não tinha surgido uma grande idéia de se como tirar proveito do trânsito de transportes ou pessoas por aquele país. Não adiantaria muito insistir em atrair quem pudesse se interessar em suas belezas naturais, pois o mar do Caribe é mais inspirado nos países vizinhos e a sua zona franca comercial ainda não despontou também como atrativo. Assim, agora se vende a idéia que o Panamá é um Hub aéreo das Américas. Pelo modesto, porém eficiente aeroporto internacional da Cidade do Panamá, distribuem-se vôos que agora fazem ligação entre as Américas do Sul, Central e do Norte. E quem desponta tirando vantagem disso é a ainda pequena, também eficiente e ágil Copa Airlines. Assim me foram vendidas as características da empresa aérea que ia me levar até Cuba, já que puseram fora de cogitação a chance de embarcamos num vôo direto até Havana pela estatal Cubana de Aviación.

Todo esse lero com o qual eu iniciei essa história da nossa aventura em Cuba serve só pra demonstrar que nem todo planejamento e eficiência pode resistir a um simples fato prosaico, mas que pode ter desdobramentos imprevisíveis. Como pode um submarino, operado por tripulantes árabes no Golfo Persa, sem disparar nenhuma arma de longo alcance, atrasar um vôo de uma companhia panamenha saindo do aeroporto de Guarulhos em São Paulo na direção do Panamá? Não vamos pela lógica – a resposta é tudo! Diz a lenda que homens confinados dias, ou meses em submarinos tem direito a pouco ou quase nenhum conforto, aí inclui-se o asseio pessoal.

12h55min. Avião lotado, teoricamente todos a bordo, hora exata marcada para a saída. 13h45, avião ainda no solo. As portas ainda estão abertas. Início de tumulto na últimas fileiras, justo onde eu me encontrava. Mais muvuca nas poltronas lá na frente. Os tripulantes não permitem que o finger seja recolhido, por que até aquele momento eles não têm a certeza se será ou não permitido o embarque de alguns passageiros. Esses coitados discriminados eram justamente também tripulantes, mas daquele submarino que estava vagando há alguns dias muito longe dalí. Eu, sinceramente, acredito que eles tenham tomado um banho logo que puseram os pés em terra firme, mas o futum de semanas não resistiria a uma mera chuveirada. Ninguém aceitava a companhia dos infelizes e já se ensaiava um movimento de expulsão dos marinheiros do avião. A essa altura, os comissários de bordo já tinham gasto vários daqueles frasquinhos de spray desodorizantes jogando os jatos nas saídas de ar do todo o corredor. Talvez temendo por uma represália desproporcional ao fato, já que o radicalismo islâmico não tem mesmo medidas, e vendo rapidamente o estoque de sprays acabar, a chefe de cabine tomou uma atitude: a despeito de sua fabulosa suvaqueira, os passageiros em questão vão mesmo embarcar no vôo, nem que seja pra sentar todos nas poltronas reservadas para a tripulação. Não senti muita convicção da panamenha quando ela falou essas últimas palavras, mas assim ficou decretado. Pra colaborar e tentar amenizar a situação da atmosfera no interior da aeronave, o comandante teve a idéia que eu achei a pior de todas: abriu as entradas para que o ar deixasse de circular apenas dentro da cabine, mas o que entrou dentro do avião foi o escapamento das turbinas, que naquele momento, já fazia quase 1 hora que espalhava o fumacê na área.

Pra quem, durante alguns anos da vida, estava quase todo dia dentro de um busão lotado que fazia a interminável linha Cidade Universitária-Ponta Verde, em pleno calor do meio-dia de Maceió, confesso que achei exagerada e muito mauricinha a reação das pessoas naquele vôo. Mas pensei também que, nem com todo o LSD que os Beatles poderiam ter consumido para criar o Submarino Amarelo, eles poderiam imaginar uma situação como aquela.